Erotismo em Buenos Aires: da paixão artística ao moralismo entre quatro paredes.
Oh, mi Buenos Aires querido! Que jeito mais clichê de se começar a falar sobre esta cidade, não é? Mas não há nada melhor para explicá-la: querida, simplesmente querida. Passei quarenta dias nesta cidade em janeiro, em minha segunda visita às terras portenhas, e a Julianna me sugeriu escrever sobre o erotismo e a Argentina. Eu, lógico, aceitei na hora, pois a paixão pelos dois temas é quase a mesma ( Mas vamos dividir em 3 capítulos aguardem os próximos dois).
Foto: Von Victor
A capital dos hermanos pulsa em um ritmo diferente do resto do país, que tem duas faces muito claras, sendo uma a da Argentina agrícola, interiorana, e a outra a do glamour démodé de Buenos Aires, que tem uma vida própria, uma cultura própria. E o erotismo? Pois bem, o erotismo em Buenos Aires também tem duas caras, a da arte e a da realidade.
O erótico vai se revelando aos poucos aos olhos de nós, brasileiros, acostumados ao oba-oba das bundas sábado a tarde na TV. Sempre ouvi dizer que o tango, patrimônio cultural portenho, tinha um quê erótico mas nunca entendi o porque. Compreensível, afinal o pouco de tango que chega a nós é uma acrobacia de pernas surreais alá Moulin Rouge e, mesmo estando na cidade, o que a maioria dos turistas, especialmente os brasileiros, assiste é um “show”, algo falso, produzido. Daí a minha resistência em conhecer mais a fundo a dança e a música, torcendo o nariz sempre que alguém sugeria um “tanguinho” a noite. Mas juntei forças e resolvi enfrentar o pré-conceito e fui a uma milonga (lugar onde se dança tango) pequena freqüentada basicamente por argentinos no meu adorado bairro de San Telmo chamada “Maldita Milonda” (confesso que o nome foi o que mais me instigou!). E quando vi, ao vivo e sem encenação, os casais dançando ao som da orquestra de tango que tocava eu pude entender finalmente onde estava o erótico e fiquei profundamente tocada. O casal flutua desenhando no chão com os pés algo que lembra um cortejo de cópula animal silencioso e voraz, mas com uma elegância que somente quem tem sangue azul e branco pode ter. Quem domina a situação é o homem, senhor e condutor, quase que um mestre que manipula sua escrava (apropriando-me das nomenclaturas sado-madoquistas) que, com a cabeça levemente encostada na dele dança o tempo todo de olhos fechados, em uma total entrega de si e do seu corpo. O tango é tão erótico que, parafraseando a fala de uma amiga minha que dança tango maravilhosamente bem, “o tango é perigoso, pois tem o poder de transformar pessoas bonitas em feias e feias em bonitas”.

Referências
http://www.elafronte.com.ar/ – Orquestra típica de tango que toda de segunda e quarta na Maldita Milonga. Endereço e informações no site.














