Vc saberia dizer o que é um “Albergue Transitório”?
Fiquei surpresa quando minha professora de espanhol, Cláudia, portenha de lei, me disse que a sociedade argentina era “pacata”. Para eles, pacato não é como em português que significa tranqüilo. Para eles, pacato é pudico, tradicional. Perguntei a ela se mesmo as pessoas de Buenos Aires eram pudicas, já que aceitavam tão bem a arte erótica. Ela sorriu com aquele jeito de quem pensa “menina inocente” e me explicou escolhendo muito bem as palavras que o povo argentino separava as coisas: na arte tudo é possível, a arte é intocável, injulgável, intangível; já em casa, entre quatro paredes, a coisa mudava. Cláudia me contou que o sexo é um tabu muito grande, tão grande que nem os jovens ficam à vontade para falar disso. Quando a cultura sai de cena e só fica o instinto, o ato, a vergonha prevalece.
Foto: Von Victor
Minha primeira constatação deste fato foi quando tentei conhecer a cena fetichista da cidade. O que encontrei foi algo bem rudimentar. O fetiche portenho é diretamente associado ou à prostituição ou à cena de swing e se existe algo além disso está muito bem guardado pois eu juro que procurei. A coisa mais bacana que consegui encontrar foi uma loja de roupas que traz a especialidade argentina, o couro, ao universo fetichista. A Explicito Cuero fica longe, muito longe das vistas dos turistas comuns, bem lá no fundo de uma galeria, mas vale a pena conhecer, pois as roupas são lindas (sou suspeita, adoro a moda portenha). O dono da loja é um argentinão cabeludo que com um pouco de conversa se abre e confessa: “faço a melhor festa de swing da cidade!”. Não fomos à festa para comprovar isso porque já estão calejados com o exagero portenho. Definitivamente “melhor” é o adjetivo mais usado por eles e muitas vezes significa “interessante”. Ainda no ramo dos produtos eróticos, nossa visita a um sex shop em Buenos Aires também não foi uma coisa animadora, sendo que seguem o mesmo modelo local-escondido-vitrine-preta das do centro de São Paulo, com os mesmos produtos importados que tem aqui. Boutiques eróticas? Nem pensar, nada.
Depois de uns vinte dias sozinha, enquanto caminhava distraidamente pela rua, me veio uma idéia na cabeça: não tem motel em Buenos Aires! Meio curiosa, fui perguntar à minha professora e Cláudia, pudica outra vez, disse que sim, existe e se chama “albergue transitório”. Eu já tinha visto isso na rua, mas nunca imaginaria que se tratava de um local para sexo. Esqueça a tradicional e inconfundível arquitetura de motéis brasileiros, com aquele muro grande e os portais por onde entram e saem os carros. Não, o motel portenho não passa de uma portinha como todas as outras portinhas da rua, com uma pequena placa de bronze onde se lê “albergue transitório”. Só isso, sem firulas, neons ou grandes banners com promoções que incluem café da manhã. Vergonha ou discrição? Eu realmente não sei.
Se é complicado compreender uma cultura diferente, acho que compreender uma cultura sexual diferente é ainda mais complicado. Precisaria de mais alguns meses para saber por que os argentinos são tão reservados, ou envergonhados, com os lugares explicitamente sexuais e tão tolerantes com o sexo fora do contexto sexual, como por exemplo, sex toys fofinhos ao lado do caixa de um bar modernoso ou uma propaganda da Buttman em um ônibus. Meu coração pede um regresso à Buenos Aires para desvendar esse e outros mistérios envolventes da cidade. Mas tenho que ter paciência já que – comecei com um tango, vou terminar com outro – “siempre se vuelve a Buenos Aires”.
Referências
http://www.explicitoropadecuerorockandhot.com/ – Loja de roupas de couro estilo sado e motoqueiro.
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